Eu, Sonâmbulo


“Abre los ojos”, disse Sofia Serrano
Acorda rapaz!
Acorda, que não estás a dormir.
Acorda, que ainda tens tempo.
Acorda, que se está a acabar o dia e tu a dormir.
Acorda já, olha que ninguém o fará por ti.
Não esperes pelo despertador que se esqueceu das horas e só espera a infinito.
Porque caminhas de olhos fechados para chegares ao que procuras?
O que procuras passa-te ao lado e tu a dormir!
Acorda rapaz!
Acorda, que a vida não é para preguiças,
Para isso terás todo o tempo e nenhum será teu.
Deixa-te de sonâmbulismos e acorda!
Vê de verdade o que se te apresenta,
Não olhes com esses olhos de corpo sem gente dentro,
Usa o que se te dá até à exaustão da sua existência.
Pensas que tens tempo?
Não sabes que o sómaisumbocadinho pode ser tudo que tens?
Vamos lá, acorda que já nem a sonhar estás,
Já nem sorris, nem falas com o silêncio do quarto,
Nem temes os medos, envelheceram e morreram.
Gastas-te e enganas os outros, seu sonâmbulo!
Acorda antes que te adormeças a fundo,
Para ti e para os outros, já que para ti dormes.
Acorda para a vida rapaz!
Acorda, que a vida é só vida se acordares para ela.


Savonlinna

30.06.2009


João Bosco da Silva

A Curvatura do Ser

A esta distância de mim, não me consigo reconhecer.
Deixei-me ficar e fui caminhando só de mim,
Corpo e movimento, sem o que me faz ser.
Abandonei-me sem vontade, deixei-me morrer
E renasci morto-vivo, pálida cópia envelhecida do verdadeiro que fui.
As faces familiares sorriem-me como se me reconhecessem,
Mas não é de mim que se lembram. Não pode ser de mim!
Nem eu sei de quem eles se estão a lembrar,
Nem tentando ver-me à distância... tão longe!

Ninguém diga que o mundo de cada um é curto!
Ninguém diga que a vida é curta!
Tantos caminhos e encruzilhadas dentro da cabeça de cada um!
Tanta vida e morte numa única vida de corpo!

Quantas vezes mais terei que morrer,
Parir-me de novo e errar uma vez mais,
Morrer outra e outra vez, temendo paradoxalmente a definitiva,
O final desta mãe de almas a que me chamam tu?

Não me quero! Cada novo é sempre pior que o que deixei
E acumulam-se no sotão de mim aqueles que não quis ser,
Que eram afinal tudo o que hoje queria que eu fosse, mas já não posso.

Estou hoje lúcido de mim e por isso não me reconheço.
Estou hoje sentado sobre a minha existência e sei que o que sinto
É apenas o peso do corpo sobre a minha alma que escorre para os glúteos.
Não estou triste, porque não consigo sentir...
Se sentisse quem o sentiria? Não tenho dono para o que possa sentir
E sem uma entidade que sinta, não há sensação.
Fecho os olhos e o mundo continua a não existir.
Acordo para mim e o mundo recomeça onde nunca o deixei.

Sente-se que hoje é. Hoje não é nada! Nada está hoje,
Nem amanhã, nem em tempo nenhum!
Como se pode estar no tempo? No tempo só se pode ser
E no espaço só se pode estar.
(Ridículo este que pensa e que crê que não crê em nada,
Tendo apenas o nada como certeza insegura!
Antes aquele que julgava crer e afinal só seguia,
Sentindo uma espécie de vazio cerebral, levado por ideias absurdas que outros tiveram.)

Morreu! Morreram todos! Vivo num cemitério de almas,
Rodeado por corpos vazios de gente, cheios de vazio,
Estúpidos como todos os humanos que se olham por dentro
E perdem a inocente estupidez animal.

Hoje escrevo isto apenas para desenterrar algum resto de mim,
Para ver um pedaço de carne apodrecida, nestes ossos que escrevem
E admirar as memórias que aquela pele cor de fantasma escreveu dentro de mim.

Jogos de bilhar e cerveja com os amigos, também eles mortos.
Cartas nos intervalos, rodeados por um nuvem de fumo alheia.
O traseiro duro de uma colega sobre a minha tesão adolescente.
Uma aula que ficará para a eternidade da minha alma finita.
Um parque verde onde parece ter ficado aquela criança que fui.
O primeiro amigo, o último melhor amigo e o seu regresso como amigo.
Os amigos eternos tatuados no meu ser, presentes mesmo quando não estou.
Dois corpos que se confundem no banco de trás de um carro,
Outros corpos que se confundem com os corpos que se confundiram,
Numa batida de carne de quem tem fome de sentir e ser sentido.
Quartos em cidades das memórias de infância
Descobrindo o corpo adulto de quem nem interessa conhecer o passado
E do presente basta o que nos envolve e acolhe o esperma.
Torneio de basquetebol onde me ficou o que nunca teve oportunidade de ser mais
E aquele de andebol, onde dei os primeiros passos na areia quente da vida.
As primeiras ressacas verdadeiras embalado pela água parada da piscina pública.
Os fins de tarde com os bonecos e o amigo que regressou,
Até a fome chamar por nós e o dia se cansar de ser quente.
O cheiro a verde dos lameiros do meu avô com os meus primos,
O cheiro doce do vinho no lagar do meu pai com as uvas a fugirem-me por entre os dedos os pés.
Uma noite ébria e absurda, em que só nós faziamos sentido com palavras desnecessárias.
Os matraquilhos com os bonecos a passar pelo milagre da multiplicação
No nascer da manhã depois da festa do verão à beira rio.
Os castelos que visitei e onde ficou sempre um bocado de mim.
Os corpos onde entrei e onde espalhei sempre algo que não sou.
Os amigos, sempre os amigos, que me têm mais do que eu a mim me tenho.

Custou encontrar-me. Tanto que não me encontrei.
Li-me, mas quem escreveu morreu.
Tudo pertenceu ao que estava fora. Entrou, alterou a configuração labiríntica das minhas sinapses,
Saiu... de mim, nada ficou! Só em mim ficou o que não haverá outra vez.
Vomitei-me todo e o que saiu não era eu. Até que ponto sou o que como?
Quanto sou daquilo que me faz ser?

Não sei onde ficar, nem se vou continuar deveras.
Não sei o que acabei, nem se fui eu a começá-lo.

Perdi a razão que me levou a isto e por isso, sem razão,
Terminarei mais uma tentativa falhada de me colar e me encontrar numa realidade visível,
De me explicar a quem não me pediu explicação nenhuma,
De escrever para olhos cegos uma verdade que nunca será lida.


11-06-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Os Poemas de Ninguém


"OS POEMAS DE NINGUÉM" está pronto! Nas livrarias lá para Setembro ou Outubro.

O Dia dos Meus Anos



É para se lembrarem que existo, umas palavras, uns números,
Nada mais... não como dantes, com eles e gargalhadas,
Não como o de antes, de sorriso tão grande na alma
Que nada mais podia sentir por dentro que não fosse alegria.
A mesa cheia com pouco e quente de gente.
A mesa vazia de tudo e mais só que a solidão singular.
Não há nada a celebrar. Cada vez mais distante,
Irreversívelmente distante. Cada vez mais perto,
Verdadeiramente mais perto. Celebra-se a aproximação do nada.

Congratulam-me, de forma ritual, sem me sentirem,
Sem me saberem... palavras para um conceito,
Já não pessoa: ideia, memória associada a um nome,
A uma data que é hoje, mas já não é.
E todos tão longe, longe de longe e longe de mim,
E eu que já nem me consigo ver.

E sem mais palavras dizem-me que me querem...
Foder, porque não me conhecem para o resto,
Sabendo no dia o dia que é. Usando-me e eu me usando neles.
Perdido no sem isto que me faz sofrer
Até no dia dos meus anos, mais que outro dia,
Por não ser outro dia.

E tão como os outros que me vejo nele,
Vala aberta onde apodreço num amontoado indefinível
De gente que não é, mas naceu como se o fosse,
Mas nunca se tornou... nascidos para a vala comum,
Que é o mundo, neste dia, nos que foram e nos vindouros.

Faço com que os outros chorem por mim,
Abrindo neles as feridas que não me vêem.
Acuso-os dos pecados que cometi,
Absolvendo-os com as pedradas de quem nunca pecou.
Tudo só porque é o meu aniversário.

Nada desejo e tudo me falta.
Tenho tudo o que não me faz falta
E o que necessito não posso comprar porque nem sei se existe,
Nem o que é.
Oferecem-se, mas nem deles são,
Querem-me, mas não sabem quem.

Números e palavras, lembranças do que se teve sem se pedir,
Se pode negar só depois de não ser aceite e se ter
E mesmo que se goste e se queira ficar... amostra cruel
Para nada.


Savonlinna

03-05-2009

João Bosco da Silva

Rua do Almada revisitada

De uma recordação recente te vejo como antes de te conhecer,
Renovada na tua antiguidade suja e escura.

Apago passos com passos para o esquecimento
E fecho em mim mais uma loja
Que já não sei se existiu em ti ou em mim apenas.
Encolheste mesmo que eu não tenha crescido
E tornaste-te familiarmente estranha
Como um primo que só se viu em memórias parciais.

Na sombra da tua igreja Neo-gótica,
Amadureci o meu ateísmo até não amargar mais,
Fantasiando horrores sexuais
Com as acólitas da beleza fora do prazo.

Ouço a serenata, mas a quem, não me lembro.

Passo pela porta aberta a todos,
Mas já não tenho a chave.
(Quem ocupará aquele espaço
Onde estou noutro tempo passado?)

Rio-me com dupla nostalgia
Ao passar pelo Pessoa de cem escudos
Numa das muitas lojas que o vendem por outro valor.
(e o valor que temos nunca é o que valemos.)

...e estou longe!
Perto do tempo da recordação
Em que recordei memórias facilitadas pelo espaço...
Hoje longe, aqui longe... (sempre as duas coordenadas!)

E quantas vezes por ti passei na companhia dela,
Ou regressando de estar com ela,
Quando o amor para existir
Tinha que ser tudo menos o verdadeiro, único e animal.
(quantos prefácios de orgasmos existencialistas
ficaram sem as palavras do corpo!)
Trazes-me o absurdo de amar ideias,
Mas deixei de crer no que os sentidos não tocam,
Ou quero acreditar que apenas sou fiel
À razão dos sentidos.

Tinha demasiado espaço em branco
No meu caderno de linhas
Para as tuas verdades caóticas
Que me feriam a imaginação de quem nunca viu com o corpo.

Miséria deixou de ser apenas uma palavra
Aprendida na segurança rural,
Tomou corpo, cheiro a sarro,
Actos desesperado contra quem não está na pele picada e pedinte
De uma fome pior que a real.

Em ti restos de amor mais sincero e directo,
Por ti os recipientes vazios de uma descarga existêncial
Sem finalidade e por isso real como a vida.

Quantos regressos a mim
Quando regressei a ti após uma noite
Tão vazia dos outros e de mim!

A partir de ti parti para um mundo desconhecido,
Onde conheci a condição humana
Entre os seus problemas mais reais de carne.
Aprendi a enfrentá-la, a dos outros,
E uma vez mais, uma palavra, uma ideia,
Tomou forma à minha frente,
Eu vestido de branco e ridículo
Perante a sua inelutável veste negra...
...custou, mas tornei-me estéril, agudo,
mais um instrumento de adiamento.

Sou tu, mas movo-me
E em ti se movem...
...uma variedade incoerente
Desde a loja russa ao cão que fuma.



01-04-2009

Rantasalmi-Savonlinna

João Bosco da Silva

Nem Sempre Hà Nuvens no Horizonte



Sentado numa das poucas manhãs que são minhas,
De café em punho e sol a vestir-me os sentidos de raridade,
Sinto-me mais completo que um saco cheio de nada.

Sem mais desejos que o de sorver a goles lentos o café forte
Que me acorda para o dia sem promessas,
Encaro a luz que me faz contrair a pupila
Como o tempo que me faz contrair a vida.

Dilate-se o peito e multipliquem-se os encontros com a felicidade!

O branco cinzento dos dias passados
Parece hoje branco verdadeiro,
Prenhe de beleza estéril e desolada esperança encoberta.

Hoje tenho vontade de viver!
Acordei outro que não aquele com quem me deitei.
Gosto deste de pouca dura...
As nuvens brevemente se cruzarão com o sol,
O café está acabado, a chavena já está fria
E o mundo já me chama aos meus deveres
Que não estiveram incluídos no contrato para a vida,
Assinado antes de ter dedos para isso.


12-03-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

"Os Poemas De Ninguém"

Os Poemas de Ninguém estarão brevemente em livro. Por essa razão alguns poemas foram removidos do blog A Torre e do blog de Poemas para Ninguém. Conto com o vosso interesse e apoio.
Espero que com esta minha iniciativa consiga sublinhar um pouco mais o nome da nossa terra no livro geográfico.
Haverá quem critique de forma destrutiva e absurda, mas a esses dedico-lhes os Aforismos Intempestivos... também não se pode criticar o que não existe, por isso só o que se faz é criticável.